domingo, 4 de novembro de 2012

Resenha: Homem Comum, de Philip Roth


Título original: Everyman

Philip Milton Roth é um escritor americano, nascido em 19 de março de 1933 (79 anos). Conhecido por seus romances, e considerado um dos maiores escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. Escreveu várias obras e recebeu muitos prêmios.

O livro Homem Comum foi publicado em abril de 2006 pela editora Houghton Mifflin. E no Brasil, foi publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henrique Britto, no ano de 2007.

A história começa durante o funeral do personagem principal, que nada mais é do que um homem comum, um ex-publicitário, que dedicou os dias finais de sua vida a pintura, que era o que queria ter feito desde sempre, não fosse a sociedade preconceituosa a atrapalhar e lhe impor outros rumos, mas estes ainda assim o trouxeram boas coisas. Porém, a dúvida não deixa de existir: e se minha escolha tivesse sido outra?
No velório estão presentes as pessoas mais importantes da vida dele, que soltam palavras que demonstram a dor da perda pela qual passam e lembram um pouco do que foi aquele homem para eles. E chegam a conclusão que todos sempre chegamos quando o assunto é morte: ele devia ter tido mais tempo. E através dos desabafos dos que o perderam, o autor nos remete ao que antecedeu aquela morte. A vida que antecedeu aquela morte.
A narrativa desta história que já começa com um fim, passa por toda a vida do personagem principal, relatando pequenas descobertas durante a infância, pequenas descobertas da vida, e que vão traçar, no futuro, a vida adulta deste.
O autor faz um link entre o presente, o passado e o futuro do personagem de uma forma clara que não nos confunde, deixando a história fácil de ser assimilada e acompanhada sem dificuldade.
A meu ver, a leitura torna-se mais interessante na segunda metade, pois foi o momento em que realmente quis chegar ao fim da história, mesmo sabendo seu fim previsível, queria acompanhar a vida desse homem, saber pelo quê mais ele passou antes de chegar ao fim. Uma vida comum, que não deixa de ser interessante.
É perceptível o valor dado e representado pela família. Desde cedo, quando ainda menino, o personagem demonstra grande orgulho de seu pai e do que ele faz, e a vontade de que esse sentimento seja recíproco, quando realiza as tarefas delegadas pelo pai em sua joalheria, ele faz tudo com o maior zelo, mostrando que o pai pode sim confiar nele.
Posteriormente, quando passa pela perda dos pais, a lembrança e o amor que ele guarda, e a força que ainda consegue obter das memórias, reafirma o quão boa foi sua ligação com ambos. Algo que ele gostaria muito de ter vivido com os seus dois filhos de seu conturbado primeiro casamento. Durante a vida, mais de uma vez, ele se viu questionando sua postura em relação a eles. O que poderia ter feito de melhor, o que poderia ter mudado a relação deles, que compareceram sim ao seu funeral, mas somente por mera obrigação.
Quando pequeno, ao passar por uma cirurgia de hérnia, se vê de frente com o fim da vida. Presencia a morte de outro garoto, que estava no mesmo quarto que ele. A morte o impressiona, causando medo, o assusta e o marca, pois essa é uma lembrança que sempre voltará em sua mente.
Depois de adulto, quando é acometido por algumas debilitações físicas, e se vê dentro de quartos de hospitais, ele teme não sair vivo. Uma sensação já conhecida que volta a sua mente. A cada cirurgia, cada tratamento, ele volta a sentir o mesmo medo que já sentira da morte, e enquanto envelhece, ele é atingido também pelo medo da solidão. Solidão que é resultado de algumas escolhas, que ele mesmo passa a refletir se foram positivas ou negativas.
A abordagem principal do livro é o envelhecimento e o fim – inexorável - da vida, a morte.
Há um momento em que tudo que ele quer é poder parar de envelhecer e não ter que enfrentar a sua própria morte. Neste momento ele, além de ver seus pais e heróis morrerem, também vê alguns amigos, amigos da mesma idade que ele, que conviveram muitos anos com ele, que passaram muito do que ele já passou, e que levaram um pouco dele com suas mortes. O que o faz constatar que logo quem morrerá será ele.
Uma contradição pela qual ele passa já no fim de sua vida é a respeito de seu irmão mais velho. Apesar de ter mais idade, Howie é incrivelmente saudável, nunca tivera nenhuma doença relevante, fez escolhas melhores em sua vida, e é muito realizado e feliz com sua família. Isso acarreta ao personagem certa inveja. Por que ele não pode dividir um pouco de seu sofrimento com o irmão? Qual a razão dele ter mais sorte e melhor saúde? Por que não eu a ter a melhor saúde já que sou mais novo? Porque não ele a morrer primeiro? Esses sentimentos são contrapostos com o amor que sente, e o companheirismo demonstrado pelo irmão.
Acredito que o fato do protagonista sequer ter um nome está ligado com a ideia de ser uma história de vida comum, que toda a trama revela. É um João, um Antônio, um Ricardo, e até mesmo uma Maria, tanto faz, é um “homem”, um ser humano. Uma mulher ou um cara tão comum quanto qualquer um de nós, que tem uma vida com um começo e um fim. Independente de gênero, uma vida que está destinada ao fim. E isso do fim é tão claro que a história já começa com o fim, não há nenhum suspense no que vai acontecer, ele vai morrer, sem dúvida alguma, do mesmo jeito que todos nós morreremos um dia e não há como escapar disso, não tem remédio, não tem saída.
É uma triste verdade, um triste fim, apenas por significar um fim.
Durante a leitura imagino que todos desejem que ele volte a ser verdadeiramente feliz antes que chegue ao triste fim, a morte. Torcemos por ele, pra que aconteça algo que valha a pena, algo que o faça não morrer solitariamente. Acho que esse também é um desejo vivo dentro do personagem. Ele quer uma saída, mas acaba se convencendo de que não existe.
Nós - aliás, alguns de nós - como seres humanos, temos uma esperança que não sabemos de onde vem, acreditamos no depois. Acreditamos, sobretudo, que podemos fazer tudo valer a pena antes de chegar ao final. O que a leitura nos proporciona é a visão de uma realidade cruel, que nos fala sem pestanejar que a vida é curta e que precisamos aproveitá-la ao máximo, antes que seja tarde demais.

2 comentários:

  1. Ótima resenha! Ainda não tive a feliz oportunidade de ler Philip Roth, porém é um objetivo a ser concretizado em minha vida de leitor, certo que é. Rita, a propósito, por acaso você tem alguma obsessão? O http://jefhcardoso.blogspot.com anseia por um comentário de sua parte. Abraço!

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