segunda-feira, 21 de abril de 2014

Paixão Cotidiana.

São Paulo, SP.

I

Vitor, chamava-se ele. Ela? Nem imaginava ele. Rotineiramente as seis, a caminho de seu trabalho, dirigindo, passava por uma parada de ônibus, onde em pé, encostada num poste, uma moça distante das outras pessoas,  tinha fones nos ouvidos e balbuciava palavras, vezes sorrindo, vezes emburrada. Palavras que não pareciam canções. Pensava Vitor, consigo. 
A franja - de seus cabelos ruivos, longos e levemente enrolados nas pontas - bagunçada caía sobre os olhos castanhos claros estreitos, que com toques impacientes a menina colocava para trás repetidas vezes em quanto o sinal não esverdeava para o rapaz.
Ela costumava mirar o chão. Vez em quando, algum dia, ele via ela olhando para o alto. Provavelmente buscando o sol, em meio os arranha-céus, ao mesmo tempo em que se esticava, mudando os pés de posição. 
Vitor sempre tão atento a menina de sardas clarinhas na bochecha, teve de ouvir uma buzina para notar que o sinal não estava mais vermelho, e então arrancar com o carro. 

Numa segunda qualquer, distraída, olhava para a avenida e por um instante, deixou sua atenção sobre um rapaz esguio, de cachos castanhos e amassados, dentro de um carro preto, com os vidros meio abertos.
Fitando o semáforo, o rapaz parecia pensativo. Ela reparou sua cara de sono, sua barba por fazer. Quando o verde surgiu, buzinou para o carro a sua frente apressado. Ela esperou-o sumir. Então viu seu ônibus parar, apressou-se e entrou na fila para subir.
Quando pisou no primeiro degrau, a porta fechou e o motorista seguiu. Procurou um lugar no fundo. Tinha um, apesar de várias pessoas estarem em pé. Foi se encolhendo e passando por elas. Sentou-se. Procurou seu celular na bolsa grande que carregava, botou fones e recostou a cabeça no estofado.
Despercebidamente aquele perfil recém conhecido perambulava no meio da música baixa que escutava. O nariz, os cílios grandes, a pele morena. Era do que ela lembrava. Camisa azul claro. Será que combinava com uma calça jeans e tênis brancos ou uma calça social com sapatos pretos? Os dois cairiam bem, pensou.
Naquela segunda de noite fria, adormeceu rápido, sem desligar a tv, sem pegar os fones, e encontrou aqueles cachos durante o sono.
Maria, seu nome. Ele, ela não sabia.

(Talvez... Se eles olhassem na mesma direção.)



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