São Paulo, SP.
I
Vitor, chamava-se ele.
Ela? Nem imaginava ele. Rotineiramente as seis, a caminho de seu trabalho,
dirigindo, passava por uma parada de ônibus, onde em pé, encostada num poste,
uma moça distante das outras pessoas, tinha fones nos ouvidos e
balbuciava palavras, vezes sorrindo, vezes emburrada. Palavras que não pareciam
canções. Pensava Vitor, consigo.
A franja - de seus
cabelos ruivos, longos e levemente enrolados nas pontas - bagunçada caía sobre
os olhos castanhos claros estreitos, que com toques impacientes a menina
colocava para trás repetidas vezes em quanto o sinal não esverdeava para o
rapaz.
Ela costumava mirar o
chão. Vez em quando, algum dia, ele via ela olhando para o alto. Provavelmente
buscando o sol, em meio os arranha-céus, ao mesmo tempo em que se esticava,
mudando os pés de posição.
Vitor sempre tão atento
a menina de sardas clarinhas na bochecha, teve de ouvir uma buzina para notar
que o sinal não estava mais vermelho, e então arrancar com o carro.
Numa segunda qualquer, distraída, olhava para a
avenida e por um instante, deixou sua atenção sobre um rapaz esguio, de cachos
castanhos e amassados, dentro de um carro preto, com os vidros meio abertos.
Fitando o semáforo, o rapaz parecia pensativo.
Ela reparou sua cara de sono, sua barba por fazer. Quando o verde surgiu,
buzinou para o carro a sua frente apressado. Ela esperou-o sumir. Então viu seu
ônibus parar, apressou-se e entrou na fila para subir.
Quando pisou no primeiro degrau, a porta fechou e
o motorista seguiu. Procurou um lugar no fundo. Tinha um, apesar de várias
pessoas estarem em pé. Foi se encolhendo e passando por elas. Sentou-se. Procurou
seu celular na bolsa grande que carregava, botou fones e recostou a cabeça no
estofado.
Despercebidamente aquele perfil recém conhecido
perambulava no meio da música baixa que escutava. O nariz, os cílios grandes, a
pele morena. Era do que ela lembrava. Camisa azul claro. Será que combinava com
uma calça jeans e tênis brancos ou uma calça social com sapatos pretos? Os dois
cairiam bem, pensou.
Naquela segunda de noite fria, adormeceu rápido,
sem desligar a tv, sem pegar os fones, e encontrou aqueles cachos durante o
sono.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Opine, opine *-*